Oops… we did it again

“Mãe, será que posso começar a levar packed lunch para a escola?”.

 “Sim, filho, não há problema. O que é que se passa? A qualidade da comida está a piorar?”

“Não, mãe, mas agora o year 8 é o último a comer. Hoje tivemos de esperar quase 45 minutos, comer à pressa e chegámos atrasados à aula seguinte!!”

“Claro, filho, passas a levar packed lunch! No worries!”

“Obrigada, mãe! Desculpa se isso vai dar mais trabalho!”

“Não te preocupes, Luís! Besides, you will also take part in its preparation, right?”

“Sim.” – responde ele já de costas, a caminho da sala.

Esta conversa teve lugar segunda-feira à tarde. Hoje de manhã, a caminho da escola.

“Luís, limpaste os óculos?”

“Ups, esqueci-me. Sorry, mummy!”

“Vá, aproveita agora e faz isso. Deixei-te a caixinha dos óculos ao pé da tua secretária, com o paninho. Puseste-a na mochila?”

“Sim, mãe. And, besides, I can see perfectly clear even if I don’t clean them every day!”

Não me venhas com essa. Da última vez que disseste isso e eu tos limpei, vi que estavam sujíssimos, as lentes pareciam enubladas, tantas eram as dedadas, filho!”

Alguns minutos depois, já à porta da escola.

“Mummy’s minibus has arrived, Luis! Tem um excelente dia, filhote! Até logo! Diz adeus ao mano, Leo! Não deixes nada no carro, mochila, packed lunch…”

“Oh, não!!! Esqueci-me do packed lunch!

“Luis, how dare you?” (Oops, tone it down, mummy! Não te passes, nem exageres!) “Luís, como é que te esqueceste do almoço depois de todo o trabalho que tive a cozinhá-lo e a prepará-lo esta manhã?” (Ui, também não bem é por aí, it’s not like you climbed mount Everest, keep cool!)“Luís, tens de ter mais responsabilidade com as tuas coisas, filho.  Não pode ser assim!”

I know, mummy! I am as disappointed as you are…”

Eu não estou muito desapontada, Luís. Nem é caso para grandes preocupações, tens o almoço da escola, a quarta-feira até é o roast, que costuma ser bom. Vais é comer quase no final da hora de almoço, já cheio de fome, mais à pressa. E foi para evitar isso que te fiz o almoço, certo?” (Sentimento de impaciência a querer vir ao de cima, again.) “Bem, nada a fazer agora. Não te preocupes mais com o packed lunch agora. Está na hora, filho, tens de ir. Tem um bom dia! Até logo!”

Já não me recordo se me deu um “bom dia” cabisbaixo ou se nem disse nada. Eu também já tinha posto o carro a trabalhar e já estava com um olho na estrada para ver se não vinha nenhum carro e podia arrancar.

Já em andamento lento, olhei pela janela do lado direito, Luís a chegar ao portão da escola, com olhar triste e semblante pesado. Sorrio para ele, mas a sua expressão não se altera, nem tenho a certeza se me estaria a ver ou não. No seu olhar, vejo névoa e neblina… E estas o paninho dos óculos não consegue limpar…

Em andamento, com o olhar na estrada e no espelho retrovisor, a sua imagem vai ficando mais pequenina e o meu coração mais apertadinho.

Com o olhar na estrada e no espelho interior, reparo que o Leo está sossegadinho, com ar sério e pensativo. Quando os nossos olhares se cruzam, o seu olhar desvia-se em direção à janela. Parece que percebe tudo. E percebe. Viu, sentiu e sente o que se passou. Ao vê-lo desviar o olhar, senti como se ele estivesse desapontado comigo. Eu estou desapontada comigo. Ainda não consigo ser a mãe-Zen que gostaria de ser. Ainda me exalto mais do que queria. Ainda deixo que estas situações despoletem em mim reações e sentimentos que ainda não controlo.

Em busca de algum consolo e com pensamento prático ligo ao pai.

“Lu, por favor, podes ver onde o Luís Pedro deixou o packed lunch e colocar a comida no frigorífico para não se estragar?”

“O quê? Ele esqueceu-se do packed lunch?”

“Sim…”

“Opá, eu até o podia ir levar isso à escola, mas isso vai-me complicar aqui um bocado o esquema dos comboios. Se ao menos hoje eu fosse de bicicleta…”

“Luís, desta vez não. Não vais fazer um trajeto maior e chegar depois da hora para passar na escola dele. Ele tem o almoço da escola. Não vai passar fome. Ele tem de crescer. Temos de o deixar crescer. Ele precisa de sentir as dificuldades que o seu esquecimento provocou. Se continuarmos a andar sempre com ele ao colo ou a a fazer as coisas por ele não estamos verdadeiramente a ajudá-lo. Não a longo prazo.”

“Claro, e ele assim também já não se vai esquecer de novo. Tal como se se voltar a esquecer do P.E. Kit ou se algum dia se esquecer do trabalho de casa. A eventual detention será um bom lembrete.”

“Sim, concordo contigo.” (Então, porque será que o meu coração ainda está meio apertadinho?) “Então, vá, amor. Tem um bom dia! Até logo!”

“Tem um bom dia” ecoa no meu pensamento. “Tu, também, Luís Pedrinho!” envio em pensamento. Não foi o melhor início de dia, é verdade, mas até nestes dias, que se iniciam com névoa e neblina, o sol espreita e irradia, quando as nuvens matinais se dissipam. As do céu ou as do Eu.

Alguns minutos depois, à porta da escola do Leo.

“Mummy’s minibus has arrived, Leo!” Tiro-o da cadeira. Sorri para mim. Pego-lhe ao colo e levo-o até à porta da escola. Há dias em que vai pelo próprio pé, hoje enrolados num abraço, vamos ao colinho um do outro. Já à porta da salinha, pelo seu pé, vai ao encontro da educadora. Sopro-lhe um beijinho e digo “Tem um excelente dia, filhote! Até logo! Diverte-te e porta-te bem, está bem?” Sopro-lhe outro beijinho.

Já no carro, a minha seleção de músicas matinais continua a dissipar a neblina. Já na minha escola, sentada ao computador, nesta manhã que o meu horário indica ser dedicada à preparação e planificação de aulas, sinto a necessidade e o chamamento da escrita. Escrevo e liberto, reflito e aprendo. Registo o momento e o ensinamento. É catártico. Logo à noite ou amanhã, depois de mostrar o escrito e de ter a autorização dos dois intervenientes, talvez partilhe. Talvez esta manhã que tanto me ensinou possa ajudar outras mães, outros pais e outros filhos. Talvez a partilha, o entendimento, a cumplicidade e a empatia possam ajudar a aligeirar alguma eventual neblina dos corações ou pensamento dos eventuais leitores.

E assim, vamos aliviando a carga das manhãs ou dos dias mais cinzentos que todos vamos tendo. E assim, percebemos que somos todos humanos, erramos, temos esquecimentos, exaltamo-nos e partilhamos das mesmas dores. E as mais dolorosas e frequentes são as que mexem com os nossos temores e com os nossos amores.

Com amor,

Lily

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